"He was the saddest man I ever knew."

É assim que pela primeira vez ouvimos falar do letrista, autor de "Blue Moon" (1934), Lorenz Hart, pela voz do narrador.
Vemo-lo cambalear pela rua, num prenúncio do fim, que só é revelado nos últimos minutos da fita. Até lá, durante cerca de hora e meia, estamos no bar Sardi’s, em Nova Iorque, e somos os confidentes de um Hart de 47 anos, desiludido com a vida, especialmente depois do seu companheiro profissional de há mais de 20 anos, Richard Rodgers, ter alcançado o seu primeiro grande sucesso... junto de Hammerstein, com o musical da Broadway "Oklahoma!".
Além disso, o seu coração está caído aos pés de uma deusa de 20 anos, Elizabeth, estudante de Belas Artes em Yale, e que é a sua "protégée".
Gostaria de ter despertado nela mais do que admiração, diga-se, "irracional", como lhe chama Elizabeth, e respeito, mas contenta-se com ter acesso às confidências mais pessoais da jovem nova-iorquina aspirante a figurinista no teatro musical e a escritora (escreve poemas). Também não lhe falta carinho, que a estudante universitária lhe entrega sem conta, peso ou medida: talvez por ver em Hart um mentor, que a introduziu no meio cultural e que a ajudou a fazer contactos; quem sabe se por se sentir ouvida por ele como por mais ninguém, especialmente após um jovem por quem estava completamente apaixonada a ter desiludido (“Ah, not to be loved enough…”, riposta Hart, compreendendo perfeitamente o que a sua musa estava a sentir); ou mesmo por se deixar render às delícias de ser admirada por um verdadeiro apreciador da beleza. (Quem não deseja no seu íntimo ser adorada? A beleza serve para quê, afinal?)
"Numa relação há sempre um que ama e outro que se deixa amar", reflete. Bom, são muitas as suas incursões pelos sentimentos mais profundos dessas almas sensíveis, grupo onde se inclui. Especialmente quando se dá conta de partilhar o bar com um escritor de que muito gosta (mas cujo nome não recordo), e então, de irmão nas letras para irmão, extravasa todo o seu sentir.
“She may not notice me, but I notice her”. Se, nos seus momentos finais, reconstituídos por este filme, o letrista dos anos 30 se sentiu, em várias circunstâncias, na sombra de algo ou alguém - de um amor inalcançável, do concorrente no plano profissional: o “circo musical”, como lhe chama -, “Blue Moon” (2025) colocou o seu retrato na devida posição de destaque, merecida pela extrema sensibilidade (ou não se chamasse H(e)art) e talento artístico expressos nas letras de célebres canções como, desde logo, a que dá nome ao filme, mas também “The Lady is a Tramp”, “Isn’t It Romantic”, entre muitas outras.
Ao longo da sua vida, procurou o “inefável”, como confessa no filme. Porém, acabou sendo vítima do álcool em excesso (caso que nos é familiar), com uma morte deplorável, marcada pela solidão e pelo desvario, aos 48 anos. (Outra quase coincidência curiosa...)
O filme está repleto de referências a livros, espetáculos, canções daqueles anos: mais uma razão para não se perder este filme de Hollywood, mas muito pouco hollywoodesco (tal a condensação dos espaços, tempo e personagens, e a total ausência de efeitos especiais).
P.S.: É curioso terem escolhido, para interpretar Hart, um ator que protagonizou uma longa, nos anos 90, em que todo o enredo gira em torno de um diálogo, mantido durante 24h, também com uma linda jovem. Trata-se de "Before Sunrise" (1995).
"Que c'est un fatal présent du ciel qu'une âme sensible! Celui qui l'a reçu doit s'attendre à n'avoir que peine et douleur sur la terre.”, in Julie ou La Nouvelle Héloïse, de Jean-Jacques Rousseau.

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