Maria I, rainha da Escócia (1542-1587) tem sido recuperada, como merece, pela Arte e pela Cultura nos últimos tempos: veja-se o filme “Duas Rainhas” (Mary, Queen of Scots, no título original). Porém, uma das mais imponentes vozes que a celebrou foi a de Stefan Zweig (1881-1942), em 1935.
Stefan Zweig prima pela densidade psicológica que consegue reconhecer e recriar, maravilhosamente, nas personagens, fazendo ainda jus ao chamado “romance de formação”, em que se descreve a formação física, moral e psicológica do protagonista, desde a infância até à maturidade – género inaugurado pelo escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832).
Maria Stuart recebe, no livro, o destaque que a História consagrou à sua prima, Isabel I de Inglaterra. Aquele consagra-a como heroína, apesar dos momentos menos felizes que também são revelados, mas que ficam a perder quando comparados com as suas virtudes (ademais inexistentes na familiar): o entusiasmo, a temeridade e a dignidade de uma verdadeira ungida por Deus, com que enfrenta o destino, sempre desfavorável. Até mesmo quando sob um jugo de quase duas décadas, especialmente quando tenha descido à situação, de todas, a mais vexatória - a decapitação -, que a eleva, simultaneamente, ao estatuto glorioso de mártir. Para mais, tendo sido a primeira soberana da História a ser, não só julgada por um tribunal terreno, como condenada a tamanha pena.
Talvez o seu maior feito, qual Jesus que deu a vida pelos Seus filhos, tenha sido o de ter morrido para que o herdeiro, Jaime I, se tornasse, sem qualquer mérito próprio, o primeiro monarca da Escócia e da Inglaterra. Mas do seu reinado destaca-se igualmente a defesa inabalável da Igreja Católica face ao Protestantismo que já conquistara a Inglaterra e que queria destronar, na Escócia, aquela religião cristã.
Já relativamente ao lado negro da sua história, salta à vista a sua participação no conluio para matar o seu marido, o rei da Escócia, que, há que ressalvar, foi, segundo o autor, desempenhada num “estado de hipnotismo” imposto por uma devoção cega ao homem viril por quem nutre a maior paixão da sua vida.
Bothwell - tal era o seu nome - estava interessado, sobretudo, em conquistar o trono, estando disposto a empregar todos os meios para atingir os seus fins – o que, verdade seja dita, era o prato do dia daqueles tempos, em que Direito/Política e Moral não tinham, de todo, de coincidir, segundo a lógica instaurada por Nicolau Maquiavel (1469-1527), através de “O Príncipe”.
Não podia ter começado a descobrir a obra de Zweig com um título melhor, dados os meus gostos pessoais, que tendem para o género biografia e para personagens históricas femininas que tenham marcado o seu tempo (e não só), e com quem tanto aprendo, deleitando-me ainda a verificar que tanto têm de humano, permitindo, portanto, um estabelecimento de uma conexão pessoal consigo.
Agradeço à Alêtheia Editores pela edição deste belíssimo clássico e por se ter preocupado com o bolso dos seus leitores durante a Feira do Livro de Lisboa.
O escritor austríaco que veio a falecer em terras de Vera Cruz é também autor das biografias “Maria Antonieta”, “Fernão de Magalhães”, entre outras, para além de ter escrito inúmeros romances e ensaios, sem esquecer a novela e o texto dramático.

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