O Sonho (1888), de Émile Zola

Neste livro, o sonho (e o amor) triunfou,
P’ra se cumprir a profecia
Daquela perante a qual a Morte se curvou,
Com hossanas e árias de alegria.
Sob o olhar materno de Santa Inês, na sua catedral,
Angélica, com a humildade de uma exposta, se entregou no altar,
Sem mácula sequer do pecado original,
Para aos nobilíssimos Hautecoeur eternamente se ligar.
Como uma dessas Santas do Cristianismo primitivo,
Nela ardia a paixão e a fé, que por dominar se debateu... disso pereceu.
Sendo necessária a realização do Sonho, reergueu seu corpo, semivivo,
E sublimado o amor superno, a divina aparição aos Céus, enfim, ascendeu.
Sei que parece uma dessas histórias românticas banais, em que amores impossíveis levam à perdição. Mas esta obra está repleta de surpresas que, embora quiméricas, conduzem a um final apoteótico e de mestre!
Apesar disso, o autor vai-nos dando algumas pistas, como o facto das mulheres da família dos Hautecoeur morrerem no auge da vivência do amor, assistindo, das suas sepulturas, à cerimónia grandiosa que encerra o livro.
A genialidade da obra está também na refutação da necessidade de martírio quando em face do sentimento de paixão, que a heroína, movida pela leitura da "Lenda doirada" de Jacques de Voragine, compilação de biografias sobre os primeiros santos cristãos, impõe a si mesma. "Todos [os contos] glorificam a separação dos esposos", concluía. "Só se casa para morrer", acrescentava.
Contudo, depois de quase perder aquele a quem estava destinada unir-se, com a aprovação da sua padroeira, abre o seu coração a esse jovem que descendia de família igualmente abençoada pela sua santa (supramencionada).
Os milagres sucedem-se em catadupa quando Deus, enfim, dá a palavra de ordem, e, "se Deus quer, eu o quero" (divisa dos Hautecoeur). Monsenhor permite o casamento entre os jovens tão distantes na condição social, mas tão próximos na nobreza da alma; a maldição sobre os pais adotivos de Angélica é levantada e sobre a cidade de Beaumont-sur-Oise cai uma chuva de oiro, oferta desses "elevados corações" tocados pela Graça de Angélica.
Os obstáculos que pareciam inultrapassáveis e que tantas vezes parecem precipitar as personagens para fins trágicos acabaram, pois, por se desvanecer, quando por todos o árduo caminho de aperfeiçoamento se viu percorrido. Angélica é quem mais se eleva, depondo-se no altar imaculada, depois de ter recebido a (desnecessária) Extrema Unção. E virgem expira, assim que se vê oficialmente unida a Feliciano, para provar aos céticos que os milagres existem.
É ao sabor de um beijo de amor profundo, selando a sua sagrada união, que a Sibila inicia o seu voo rumo ao Invisível...
"A Lenda tinha-lhe ensinado que o milagre é a regra comum", lê-se na obra. Talvez possamos interpretar esta frase à luz da visão de Einstein: "There are only two ways to live your life. One is as though nothing is a miracle. The other is as though everything is a miracle".
O que posso dizer mais? Uma pérola!
P.S.: 1888 é também o ano de publicação de Os Maias, de Eça de Queiroz.


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