Publicado quando tinha apenas 19 anos, “À Espera que Venha o Diabo” (título original e da edição que li), o diário da canadense Mary MacLane, alcançou um sucesso imediato, quando saiu, em 1902 (embora com outro título), e foi no início deste ano reeditado pela Guerra e Paz.

Escrito durante três meses, entre janeiro e abril, é uma obra pungente, viciante, sensual, extática, dilacerante… Como poderia alguém de uma idade tão precoce produzir tal obra? Mas Mary MacLane não é uma pessoa qualquer, é, como ela própria reconhece, um génio, detentora de uma sageza e de uma maturidade peculiares, que naquela idade têm o seu despertar.
Atentemos nas seguintes passagens:
“Não sou boa. Não sou virtuosa. Não sou empática. Não sou generosa. Sou, meramente e acima de tudo, uma criatura de sentimentos intensos e apaixonados. Sinto, sinto tudo. É aí que reside o meu génio. Queima-me como fogo.”
“Sinto-me como se tivesse quarenta anos. No entanto, o que sinto não é o que alguém de quarenta anos sente. São sentimentos de uma juventude miserável e infeliz. Todos os dias me é insuportável ficar em casa, por isso, vou sempre para a areia e para a aridez. (…) combino na perfeição com tudo isto.”
Nascida no Canadá, em 1881, com ascendentes escoceses, das Highlands, a escritora e feminista afirma que tem vivido a sua vida inteira numa profunda e doentia solidão - a “tragédia do nada”. Uma alma gigante numa cidade sem perspetivas, onde a principal atividade era a extração mineira do cobre. Sente-se rodeada de “mentes tacanhas”, e uma estranha até entre a família.
O que a salva são os seus múltiplos eus e a sua grande capacidade para se autoexaminar – considera-se uma “mente errática e analítica” -, que está bem patente no livro, afinal, um exercício de autoanálise levado ao extremo, mais do que um diário. Nele, até os seus defeitos mais chocantes encontramos expostos, a bem da verdade do seu autorretrato, que é de uma honestidade desarmante, como o facto de se revelar uma “ladra” (mas não patológica) ou uma “mentirosa”. Já dizia Sócrates que “uma vida que não se examina não vale a pena ser vivida”.
“Idiota, génio, jovem mulher solitária, é meu dever dar voltas e mais voltas na minha vida interior, por tantos anos, tantos que só o Diabo sabe. Depois disso, deve a minha alma dar voltas e reviravoltas tantos séculos quantos o Diabo quiser.”
“Não sou genial por ser estranha a tudo neste mundo, nem por ser intensa, nem tão-pouco por ser uma sofredora. Pode ser-se tudo isto e não se ter esta perceção maravilhosa.”
Há um episódio engraçado, que revela o quanto até as nossas funções mais básicas podem ser – e são, de facto – alvo do escrutínio da escritora, que, depois de terminar o secundário, tinha apenas como deveres as habituais tarefas domésticas, e, por isso, bastante tempo livre (algo que não iria durar muito).
Mary MacLane tenta dominar a “arte de bem comer”, para o que desenvolve uma técnica e uma forma muito curiosa de a avaliar: é necessário compreender se todos os órgãos que entram em contacto com o alimento o recebem com efusividade, numa “sinfonia de secreções gástricas”, num “encontro das águas”, num delírio amoroso, poder-se-ia dizer. No final, conclui:
“Esta é a arte de comer.
«Dominei-a por meio da auto-análise, analisei, analisei, analisei. Na verdade, o meu génio é analítico e isso permite-me carregar, embora com amargura, o fardo gigante que é a vida.
«Que verme miserável seria se não fossem estes surtos de filosofia, estas distrações!”
Esta solidão colmatada com a imaginação em substituição da realidade é apenas quebrada, por momentos, pela lembrança da sua “Senhora das flores silvestres”, uma antiga professora de literatura do liceu, por quem tem uma enorme admiração, dir-se-ia mais, uma profunda adoração. Afinal, não foi ela a primeira e única mão amiga que foi ao alcance da sua, que até aí, e a seguir a isso também, apenas recebera pedras, como a própria refere?
De facto, as passagens em que dá destaque a Fannie Corbin são, na minha opinião, das mais belas da obra, e nas quais é, enfim, possível sentir que Mary MacLane está em paz. Apesar daquela ser já, naquela altura, apenas “uma memória e nada mais”.
Apresento uma dessas passagens que me tocou: “Foste tão doce e maravilhosamente gentil comigo. Foste a única que alguma vez o foi. Há em tudo isto algum delírio, só não sei dizer quanto. É um pesar e uma angústia antigos ter vivido dezanove anos e não recordar um único gesto de bondade que outra pessoa tenha tido comigo. Como acham que é encontrar, ao fim desses dezanove anos, alguém que me trata de uma bela e maravilhosa forma?
«Deixem-me contorcer e fraquejar de dor; deixem-me enlouquecer, mas oh, gente do mundo, pelo amor do vosso Deus, dai-me, desta escuridão fervilhante, apenas uma bonita mão humana que toque a minha com amor, um bonito coração humano para conhecer a triste e latejante solidão do meu, uma bonita alma humana para se fundir com a minha num longo, longo descanso.
«Oh, chora a minha alma por um ser humano, alguém para me amar!
«Oh, saber, por uma vez apenas, como é ser amada!”
Eis o apelo deste “ser imbuído de uma intensa feminilidade”, um “espírito com um intenso sentido do amor, com um espírito como o de Madalena que amou de mais”, que encontrou, ao fim de “dezoito anos sem ninguém para amar e sem ninguém que nos ame”, uma amizade marcada por uma “ternura indescritível”, que, no seu coração, é um amor com uma “intensidade algo peculiar e vívida, e com toda a minha sinceridade e paixão.”
Contudo, destaca as diferenças que existem entre as duas: “Ela acredita em Deus, aquele Deus da Bíblia dos cristãos, e traz consigo uma atmosfera de gentileza e verdade. Ao passo que eu estou aqui pronta, à espera de dedicar a minha vida ao Diabo em troca da felicidade ou algo de menor importância”. Assim, não pode ser compreendida na sua totalidade pela professora, e encontrar alguém que a compreenda é algo que desesperadamente procura.
“Não há uma alma no mundo que se doa de mim ou que se doa comigo, uma única que seja dentre todos os milhões. Ninguém me consegue perceber… ninguém!” É o brado da “desesperança desesperada”, como lhe chama.
Esse alguém só pode ser o Diabo, a seu ver, uma criatura mais misericordiosa, depois das suas preces a Deus parecerem ter-se perdido algures no éter. “Sentes-te apática, nada te importa”, diz-lhe o Diabo, vendo como ela corteja a Morte, é seduzida pelo oblívio, a inconsciência (tendo consciência disso), como solução para os seus eternos e insolúveis males.
“- Tu sabes tanto, tanto. (…) Tens a sabedoria das esferas, como tal, deves compreender-me. Porque a minha maior agonia é não haver ninguém que compreenda estes sentimentos que me esmagam. (…) E os teus olhos!” - riposta Mary MacLane. "Pressinto que o mundo nunca saberá o que sou.”
Afirma-se disposta a trocar tudo por três dias apenas de Felicidade com ele, que seriam como a eternidade, e assim realizar o seu sonho de uma união sagrada, não graças ao santo sacramento do Matrimónio, mas ao poder purificante do amor. “Aquilo que tem amor é elevado a outro nível”, afirma, complementando: “Abomino casamentos adequados!” Procura um “Homem-demónio”, que a conduza à ruína, para que os seus “esfrangalhados nervos” e a sua “inquietação e anseio constantes” sejam consumidos e lhe tragam a paz de espírito com a qual diz que seria capaz de produzir grandes obras. Prefere a ruína ao nada.
“Nada para mim tem grandes consequências, exceto livrar-me desta inquietação e desta dor.”
Enquanto espera pelo Diabo, vai produzindo a sua própria “filosofia peripatética” – que “roça perigosamente o sensualismo” (“sou apenas um grande acúmulo de desejo”) -, enquanto caminha pelo deserto de Butte, no Montana, Estados Unidos. E acaba por ter alguns encontros furtivos com o Diabo, durante essas deambulações ou quando, já ao cair da noite, se senta na cadeira virada para a janela do seu quarto. São encontros imaginários, mas a intensidade com que os vive faz-nos duvidar se não aconteceram de facto.
No final, conclui que “nunca há nada de diferente. Nunca acontece nada”, e que os “torturante vislumbres do Paraíso” que tem, de vez em quando, não lhe estão destinados. Assim, resta-lhe apenas fazer do mundo seu confidente ao entregar-lhe a sua obra, que para si é tudo. “O que há mais para mim além deste livro?”
“Compreendem o que digo? É a agonia desta minha jovem vida apaixonada que lhes conto. Ouvem-me com indiferença? Não terá esta minha história significado para mais ninguém?”
Para mim - sublinho - tem! Também eu sou Mary MacLane!
……
Depois da publicação do livro, este obteve uma grande repercussão, com uma chuva de comentários negativos e odiosos por parte dos conservadores, os paladinos da moral, mas tendo também muitos jornais e personalidades que partiram para a sua defesa, nomeadamente o Washington Post, que descreveu a sua obra de estreia como «o livro mais espantoso que foi publicado nos últimos anos».
Nos meses que se seguiram ao lançamento do seu livro, MacLane esteve constantemente nas notícias, por motivos cada vez mais bizarros, como quando uma rapariga de quinze anos foi encontrada morta em Kalamazoo, ainda a segurar o seu livro favorito: «Enlouquecida de forma mórbida pela leitura do livro de Mary MacLane, Frances Goodrich pôs fim à vida da qual acreditava estar cansada.» (Quando questionada sobre a sua culpabilidade, MacLane hesitou: «Não estou nada surpreendida. Para começar, ela vivia em Kalamazoo e, além disso, leu o livro. Quem deve ser culpado, eu ou Kalamazoo?»)
Mary MacLane tornou-se rapidamente uma sensação a nível nacional. Vendeu quase 100 000 exemplares no primeiro mês e, segundo algumas fontes, ganhou rapidamente 720 000 dólares em direitos de autor (valor atual). Surgiram sociedades dedicadas a Mary MacLane por todo o país.
O livro foi rapidamente traduzido para mais de trinta línguas.
Depois de recuperar a sua fortuna, MacLane viajou para leste no verão. A sua primeira paragem foi Chicago.
A paragem seguinte foi Buffalo, onde as suas viagens foram noticiadas como se tratando da procissão de uma santa — «A bela jovem Génio de Butte passará hoje por esta cidade» — e depois seguiu para Cambridge, em Massachusetts, para visitar Fannie Corbin, cujo endereço os jornalistas tinham divulgado. Formavam-se multidões à porta da casa da professora de inglês, dia e noite. A polícia era ocasionalmente chamada para dispersar as multidões ansiosas por ver MacLane e a sua «Senhora das flores silvestres».
Depois seguiu para Manhattan, onde aceitou um emprego no jornal New York World, de Joseph Pulitzer.
Na sequência do alvoroço em torno da sua estreia, MacLane publicou um segundo livro no ano seguinte. Esperando mais do mesmo estilo, os leitores ficaram perplexos ao abrir “My Friend Annabel Lee” (1903) — um relato proto-surrealista da amizade da narradora com uma boneca de porcelana japonesa cujo nome se inspira no poema de Edgar Allan Poe.
Para além dos seus artigos para jornais e revistas, MacLane escreveu ainda um último livro, “I, Mary MacLane: A Diary of Human Days” (1917), que foi anunciado cinco dias antes de os Estados Unidos entrarem na Primeira Guerra Mundial. Aqui, ela regressa ao seu erotismo juvenil, escrevendo com ainda maior transparência sobre o desejo («De certa forma, sou uma mulher lésbica») e história sexual.
Em 1918, MacLane aproveitou o fascínio da era do cinema mudo pelas mulheres sedutoras, co-escrevendo e protagonizando uma longa-metragem de noventa minutos, que hoje se acredita estar perdida: “Men Who Have Made Love to Me”.
Pouco mais de uma década depois, em 1929, o nome de MacLane voltou a aparecer em grande destaque nos jornais britânicos e americanos: a pioneira do «romance erótico moderno» tinha sido encontrada morta aos quarenta e oito anos, «num quarto solitário nos arredores do bairro mais pobre de Chicago». Há muito que se encontrava frágil — lutando contra crises de escarlatina e tuberculose —, mas não faleceu sozinha e abandonada, como os obituários proclamavam de forma sensacionalista. Na realidade, passou os seus últimos dias aos cuidados da sua última companheira, uma fotógrafa negra chamada Lucille Williams.
Outrora uma figura constante nos tablóides e nos jornais de grande formato, a «Mulher Selvagem de Butte» foi rapidamente esquecida pelo meio literário após a sua morte. Como Rosemont explica em pormenor: os livros de MacLane estiveram esgotados e foram difíceis de encontrar durante décadas; ela não foi incluída na obra em três volumes “Notable American Women”; e as escritoras feministas posteriores não a reconheceram como uma influência.
Mas talvez tudo isto esteja a mudar. Em 2013, o primeiro romance de MacLane foi reeditado pela Melville House com o seu título original. Em 2025, foi publicada a primeira biografia completa de MacLane. No entanto, a sua influência ainda não foi totalmente explorada. «Pergunto-me sempre: quando morrer, haverá alguém que se lembre de mim com amor?»
Fontes: https://publicdomainreview.org/essay/i-am-making-the-world-my-confessor/?fbclid=IwY2xjawTRc8dleHRuA2FlbQIxMABicmlkETBoUTMyUmdaVG80eW1MdzZrc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHhuTwGWtliAz6kcmfpGNwnmJzXM0JG0E1tVzlDZkZnDpdQh6YLZTonoyKdOG_aem_zf7UyqP9D8-lmAtnp-FeRQ


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