Uma tarde e noite inesquecíveis, na abertura da 25.ª Mostra de Doces e Licores, promovida pela Câmara de Alcobaça, nos belos espaços administrados por Ana Pagará e pelo Grupo Visabeira.
Houve literalmente doçura para dar e vender: porque o amor que ali se sentiu foi gratuito. Veja-se a candura e a ternura das irmãs, cujas mãos sabem rezar tão bem, por todos, mas elaboram também os doces e compotas de cujo lucro retiram o sustento para a sua vida (mas cujo consumo é bastante moderado; por vezes, ao pequeno-almoço, acompanhando um copo de leite, ou de cevada, na Quaresma; à noite, uma sopa apenas; mas não mais os jejuns do passado, como me explicou a irmã já de seguida referida). Uma vida despojada de bens materiais e de si próprias, porque, como me explicou uma tão simpática, sábia e humilde irmã carmelita com quase 60 anos de "casada", do Mosteiro de Bande, em Paços de Ferreira, só assim pode haver espaço para o Senhor entrar. "Não somos santas, mas queremos ser", afirmou ainda.
Às irmãs do Mosteiro do Santíssimo Sacramento do Louriçal, essa mestria na arte da doçaria valeu-lhes o prémio de Melhor Compota Conventual em 2017.
(Recomendo muito a visita a este mosteiro e sua igreja, nascidos de uma revelação de Cristo Crucificado à Madre Maria do Lado, após ter sido profanado na Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa, nos idos da primeira metade do século XVII. A jovem clarissa, nascida no dia de São João Batista, "sentiu então que a sua missão na terra era assumir em si a dor da lança que Lhe abriu o Sagrado Lado"(1) (cf. também João 19:31-36), reparando as ofensas a Jesus e sendo um recetáculo e transmissor para a Humanidade das Suas graças, para tal vindo a juntar um grupo de senhoras (cinco) que, durante o dia, se reuniam na salinha de oração na casa da Serva de Deus Maria de Brito, para fazer companhia a Jesus (Lausperene - louvor perene - do Santíssimo Sacramento), mas de noite a oração continuava, a partir dos seus lares. "Adorando e louvando, com o coração inflamado em desejos de amar e consolar a Jesus Eucaristia, tornam-se reparadoras de Seu Coração e distribuidoras de bens divinos" (1), segundo a mensagem que Cristo, então substancialmente presente em Maria do Lado, plantou no e sussurrou ao seu coração para "Louvar, Venerar, Exaltar", a qual figura no museu do Convento do Louriçal e no dia-a-dia das 12 irmãs (10 das quais oficialmente esposas de Jesus, às quais se somam duas noviças) que atualmente dão vida às paredes do lar de Deus na Terra. Maria do Lado, cujo nome também se deve ao facto de ficar de tal forma absorta durante a oração que, quando lhe perguntavam de onde tinha vindo, respondia que "do Lado de Cristo, que a recolhera em tão ditosa morada" (1), viria a falecer com apenas 26 anos, após três sofridos meses de doença (sofrimento esse que ofereceu a Deus para reparação dos pecados do mundo) (vindo já com uma saúde delicada do berço, mas, ou talvez por isso, com uma perceção e dedicação precoce à sua Missão, resultando numa vida abundante em experiências místicas, que, por mais anos que se viva, passam ao lado da maioria de nós). Durante aquele período de tempo, continuou a receber mensagens do Céu: "Abriram-se no lado do meu Senhor duas portas de luz, que ainda estou vendo nelle, e dellas estam saindo humas labaredas de fogo que me estam abrazando a alma em amor seu" (2), bem como a indicação para dar o próximo passo, fundando uma comunidade. "Em tuas mãos ponho minha exaltação, porque tu, e tuas filhas ham de ser reparadoras." (2)
O processo para a sua beatificação e canonização foi aberto em 1726, e ainda hoje padece da aprovação do Vaticano, tendo sido reaberto há uns anos. Esperemos que o reconhecimento venha em breve.
Até que o então príncipe João (futuro rei D. João V) adoeceu "gravemente", ao ponto de lhe serem dados os sacramentos devidos, e foi a cruz de Maria do Lado, já falecida, que esteve à cabeceira do delfim, que se curou. Como ação de graças, o rei mandou construir o Convento e, posteriormente, a lindíssima Igreja do Convento, toda azulejada, uma narrativa da vida de São Francisco de Assis e da Paixão de Cristo.
Santos que viveram tão perto de nós! Incrível! A próxima pergunta: onde estarão os dos nossos dias, que também existem, por certo? Podem estar em qualquer parte, e seguramente cruzamo-nos com eles todos os dias!
Mas essa é outra história, que foi partilhada com os visitantes mais curiosos da mostra, em visitas ao mosteiro que se podem agendar ou no livro "Convento do Louriçal: da Profecia à Atualidade". Regressando ao Mosteiro de Alcobaça.)
Vê-lo tão bem cuidado e tão repleto de vida, de arte, igualmente com a presença dos dois mosteiros cistercienses (femininos) que continuam ativos em Portugal, o de Rio Caldo, em Braga, e o Mosteiro Trapista de Santa Maria Mãe da Igreja, em Bragança, preenche a alma.
A banda sonora deste dia? "Sanctuary", do mais recente álbum de Sofia Escobar, "Tanto Mais", que tocou profundamente milhares de corações (a julgar pela salva de palmas), tantos quanto a tenda no Claustro do Rachadouro pôde comportar. O melhor de nós fez emergir, criando uma aura de amor, ternura, luz e esperança num mundo melhor, graças à sua inigualável voz, tão doce e poderosa ao mesmo tempo, e à mensagem daquela música que escreveu, inspirada na Igreja de S. Domingos, onde afirmou que sempre regressa quando volta a Lisboa, pois ali se sente especialmente em paz.
Tal se deve à atmosfera do espaço, que se mantém conservada, e à sua história marcada por contradições (amor-ódio, paz-tumulto, perdão-pecado, Vida-morte/destruição(-ressurreição)), como sublinha na canção, afinal, ali teve início o Massacre de Lisboa de 1506, num período em que a fome e a peste instalavam o desespero. As suas paredes sussurram ainda a história do incêndio de grandes proporções que deflagrou em 1959, que também é recordado na suave, arrepiante e arrebatadora ária, de levar às lágrimas, tanto mais quanto já se teve a oportunidade de sentir também a alma da igreja do século XIII e o seu "cheiro a incenso", "um refúgio onde as mãos se podem encontrar". Apesar de tudo, "entre as chamas, só o amor prevalece" (em tradução livre), conclui a soprano, a quem a paz do santuário tocou a alma, e, em retribuição, ela tocou-lhe(nos) uma canção, assim perpetuando esse ciclo (infinito) de geração de cada vez mais luz e paz, através do dom artístico com que foi abençoada.
Não admira, pois, que o espetáculo tenha terminado em apoteose: "Think of Me", do musical Fantasma da Ópera, que protagonizou no West End, em Londres (papel de Christine Daaé), valeu-lhe longos minutos de aplausos de pé, após uma demonstração vocal impressionante.
Mas já em "I Dreamed a Dream", do musical Les Miserables, vários se levantaram para aplaudir a jovem e brilhante soprano, que não escondeu as lágrimas impelidas pela interpretação da devastadora canção.
Igualmente tocante foi a música "É o Momento", escrita em homenagem ao marido, o ator espanhol Gonzalo Ramos, do qual esteve forçadamente separada durante três meses durante a pandemia, e de cujo reencontro nasceu mais um belíssimo presente para os seus fãs.
A recordar (sempre) (obrigada, Irmã Maria de São José): "Jesus ama-te". Ilusão, essa de se estar sozinho, pois, enquanto houver espaço no coração, a Verdade e o Amor de Jesus sempre iluminarão o caminho. E que melhor sentido para a vida que desenvolver essas virtudes que permitiram à Madre Maria do Lado um lugar do lado direito de Jesus: "mansidão, paz, humildade, afabilidade e alegria" (1)?
P.S.: Acredito em milagres, e, apesar do meu pedido - manter o telemóvel, com 2% de bateria, vivo até ao final do trabalho - poder parecer de importância insignificante, quando há tanto no mundo a necessitar bem mais da intervenção divina, a verdade é que aqueles 2% de bateria resistiram, cerca das 17h até chegar a casa, já quase no dia seguinte, com várias gravações pelo meio, mais de uma hora no total. Nunca tal me tinha acontecido, e salvou o meu trabalho. Mais eventos como este, que possibilitem a dinamização da Abadia de Alcobaça sem esquecer as suas origens e essência, é o meu desejo. Como me contou uma irmã clarissa do Louriçal, através deste evento, foi possível "ressuscitar" a sua casa no que toca à projeção para o exterior. E que bom que é poder contactar com elas!
1- "Convento do Louriçal: da Profecia à Atualidade", escrito por Ir. Fernanda Ferreira, O.S.C. e editado pela Paulus
2- "Compêndio da Admirável Vida da Venerável Madre Maria do Lado", de Frei Bernardino das Chagas
"Sanctuary", de Sofia Escobar - https://www.youtube.com/watch?v=U937tOLyEz4
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